04/12/10

O meu testemunho de Amaro da Costa.

Faz o hoje 30 anos que morreu ou que foi morto, como preferirem, um dos maiores políticos que Portugal teve a seguir ao 25 de Abril.

Tive o grato privilégio de o ter conhecido pessoalmente, embora na altura eu ainda fosse uma criança, não esqueço de algumas das suas características.

Para além de o ter visto em comícios e na televisão, tive a oportunidade de o ver algumas vezes no Caldas e de ter estado com ele várias vezes na praia do Guincho.

Do Caldas recordo a boa disposição contagiante, mesmo em algumas situações mais delicadas, quando todos estavam preocupados e por vezes com receio do ambiente que na altura se vivia, era sempre ele que aparecia com o um notável sentido de humor a descontrair e a fazer rir todos os que lá se encontravam.


O Guincho, nos Verões de 76 e 77, logo a seguir ao Verão quente de 75 era a praia onde se banhavam muitos dos mais conhecidos políticos da época, nomeadamente do CDS e do PPD.

Era comum estar na praia, em simultâneo, uns ao lado dos outros e muitas vezes juntos, vários dirigentes destes partidos. Aliás, estou convencido que muito do espírito e da génese da AD foi ali construído.

De toda esta gente e mais alguns que não eram políticos, mas que também por lá andavam, tenho a ideia que daquela geração, Amaro da Costa, embora adorasse brincar connosco, era dos poucos, ou mesmo o único que ainda não tinha filhos.

Nessa praia não era comum aparecer muita gente de esquerda, era mesmo apelidada como a praia dos reaccionários e dos fascistas. Porém, havia um, talvez o mais louco de todos os comunistas da época, que lá aparecia com frequência, nada mais, nada menos que o camarada Vasco Gonçalves.

O camarada Vasco, como era conhecido, tinha por hábito chegar à praia e sentar-se, abrigado do sol e do vento, debaixo de um toldo que alugava, a ler o Diário. Nós, eu e outros da minha idade, chavalitos dos 8 aos 12 anos, não encontrávamos nada melhor para fazer, que chatear a cabeça ao homem, cercávamos a sua barraca e durante horas seguidas, cantávamos uma música estúpida e irritante (sempre a mesma), a qual ainda hoje me lembro.

Os nossos pais estavam permanentemente, uns por receio de retaliações, outros por vergonha, a chamarem-nos, a zangarem-se e a dizerem-nos para pararmos com aquilo. Apenas Amaro da Costa, o tio Adelino como lhe chamávamos, não nos dizia nada, pelo contrário ria-se e dizia aos nossos pais: não ensinem os vossos filhos a ter medo das comunas.

São recordações que ilustram duas grandes qualidades que desde cedo percebi que Amaro da Costa possuía, um elevado sentido de humor e uma enorme coragem.

Mais tarde, depois de ler algumas coisas a seu respeito e de ter ouvido outras tantas, apercebi-me que era um homem com uma enorme inteligência, determinado e um grande estratega.

BEM-HAJA!



Nota: Parece-me que é justo mencionar que em todas as vezes que cercámos a “barraca” de Vasco Gonçalves e que o incomodámos, nunca ele teve qualquer gesto ou sinal menos simpático para connosco.

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